Esta noite estava eu em casa, tomava conta da minha querida irmã Bárbara porque por minha desventura o meu pai resolveu que queria ir sair com os amigos. A certa altura (por já estar farto de aturar a minha irmã) resolvi trancar-me no quarto, mas pouco tempo depois comecei a reflectir sobre toda a minha vida.
Como toda a gente, na minha vida tive momentos bons mas também existiram os maus. Não me posso gabar de ter tido uma vida muito feliz, porque não tive. Digamos apenas que atravessei algumas dificuldades…
Nesta minha vida de apenas 17 anos, já vi, senti e vivi muitas coisas que a maioria dos adolescentes com a minha idade nem de perto viveram. Com pais toxicodependentes, passei muitas dificuldades quer financeiras, quer familiares. Desde muito pequeno fui obrigado a crescer mais depressa que as outras crianças, fui obrigado a ver coisas que se me fossem permitidas apagava da memória sem sequer pensar duas vezes.
Fui obrigado a criar uma concha, uma defesa, que me permitisse ao menos sentir mais seguro, mais forte e menos inferior aos outros por ter tido a vida que tive. Á m
edida que o tempo passou fui fechando o meu coração a qualquer tipo de sentimento, deixei de ver a vida como algo de bom, isto é se alguma vez vi, perdi a minha essência, perdi-me. Não deixei ninguém entrar em mim, nem sequer tentei entrar em alguém. Talvez por ter medo de me magoar, talvez por não querer confiar em alguém e é certo que não tive um único amigo durante muito tempo.
Sempre me senti só, tive que usar uma máscara durante muito tempo. Tive que fingir estar feliz quando não o estava, tive que fazer de conta que era uma criança como as outras estando farto de saber que não o era. Tentava mentir a mim próprio pois tinha vergonha do que era, não era feliz.
Sempre tentando esconder a minha história, foi-me dada uma oportunidade de mudar a minha vista e tentar finalmente sorrir e ser feliz. Finalmente tinha encontrado pessoas que valiam a pena, pessoas que me davam a sensação de querer fazer algo por elas e que, me davam a sensação de quererem fazer algo por mim… Foi quando no 10ºano conheci o “Agricultor” Geraldes e o “Broeiero” Ricardo. Estes dois “Pans” acordaram-me para a vida e fizeram-me ver que não vale a pena viver a vida triste porque a vida é dois dias e temos que aproveitar ao máximo. Acabei por chegar à conclusão que não vale a pena tentar esconder a minha história, não vale a pena tentar negar o que aconteceu. Por isso hoje em dia não tenho nem um pingo de vergonha em falar no assunto, até me sinto feliz em me dar como exemplo pois sinto que de algum modo posso ajudar os outros.
Embora a vida que tive tenha sido difícil, não me considero totalmente uma pessoa triste. Considero que tudo o que me aconteceu foram simples obstáculos que tive que superar para me tornar uma pessoa mais forte e que agora são lições de vida que vão durar para sempre pois são inesquecíveis. Apenas agradeço a mãe que tive porque se não fosse ela eu não era nada, se não fosse o carinho, força de vontade, coragem, amor e dedicação desta mãe no meio de tanta dor, tudo teria sido muito mais difícil. J
E foi então que a minha reflexão interior terminou com sons muito agudos provenientes das cordas vocais da minha irmã, ou seja, berrava por mim para lhe ensinar os tpc. -.-
Lá tive eu que ir molestar os meus piquenos neurónios para lhe ensinar as contas de dividir…
Ruben Cardoso